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01 - Crônica de um Reencontro: O Fio que Tece os Sonhos
Por: Donatella Pontiel
Sabe, o tempo é um bicho engraçado. Ele corre frouxo quando somos jovens e vira um conta-gotas quando APRENDEMOS a apreciar o valor de cada minuto. Sou mãe de três homens feitos, e se a paciência hoje é minha virtude, a escrita sempre foi meu refúgio — o lugar onde eu coloco ordem no caos do mundo. E foi nesse caminhar que a vida me apresentou a Ana Caúzzo.
Conheci a Ana quando ela ainda era uma mocinha, aventurando-se a desbravar estas terras mineiras que escolhi por morada. Ela queria entender o que havia por trás de cada paralelepípedo do centro histórico, cada altar talhado nas nossas igrejas. Mas o nosso "primeiro encontro" de alma não foi em monumentos, foi no bom e velho banco de praça, com sorvete na mão e o coreto como testemunha. E olhe que coincidência — ou destino, como prefiro crer: estávamos as duas mergulhadas na leitura de "Reverso da Medalha de Sidney Sheldon."
Ali, entre uma página e outra, descobrimos que toda história tem dois lados e que a beleza mora também naquilo que ninguém vê.
Nossa amizade, embora fôssemos conterrâneas de São Paulo, foi nutrida num mundo chamado Religare - uma comunidade de pensadores anonimos que existia no finado ORKUT, onde este livro tinha sido indicado.
Ana já havia lido algumas vezes, e eu pela primeira vez, passeava por aquelas paginas — ambas com o mesmo intuito: buscavamos religar, reconectar pessoas e histórias.
Ela estava com filho pequeno; eu, com dois dos meus três, já adolescentes.
Lembro-me dela me contando sobre a difícil e doce descoberta do poder de lecionar. Eu, por outro lado, já estava encantada pela capacidade que os livros têm de nos curar.
Regar nossa amizade depois daquele encontro casual e escrito nas estrelas não foi tarefa dificil para nós, embora saiba você, que estou falando de um tempo, onde a tecnologia era nossa grande novidade, uma tarefa irrigada a longos e-mails e as espectativas das respostas, que chegavam como surpresa na velocidade de semanas ou meses depois.
Anos mais tarde, ela me soltou uma frase que virou o slogan da sua editora: "Quando eu conto a minha dor, eu produzo cura" em uma de suas respostas. Aquilo me pegou de jeito.
O estudo me abriu portas, sustentou minha casa quando o marido foi embora e os meninos eram pequenos e me transformou em acadêmica na UEMG, agora os livros ah! eles sempre foram meus melhores copanheiros.
Com a Ana não foi diferente: a tornou historiadora, mulher das biografias e desse olhar apurado com o outro. Temos uma missão comum: lapidar pedras preciosas que ainda não conhecem seu próprio brilho — nossos alunos.
Quando minha amiga criou a Histórias de Sonhos, ainda ali, no calor da sala de aula, nossa troca de e-mails tornou-se semanal. Queriamos que os alunos não fossem apáticos ao saber.
O projeto dela cresceu, saiu das classes e escolas e ganhou o mundo.
Quando vi minha confidente lançar seu primeiro e-book, me deu uma ansiedade danada porque eu tinha que conhecer logo o fruto daquela saga! - Não pude aqui me privar do trocadilho.
Vi minha amiga se aventurar por um caminho mais bonito que os diamantes de Diamantina. Sua fé nas pessoas é como a dos romeiros de Congonhas ou dos devotos de Aleijadinho.
Em 2020, naquele tempo triste de "não saia de casa", enchi cadernos de anotações, algumas trocadas com ela em nossos e-mails.
Em 2025, tomei coragem: "Ana, vamos fazer meu livro?". Ela me perguntou: "Donatela, você tem pressa?, Está sendo um ano dificil, e tenho alguns trabalhos ainda antes para se, quiser que eu produza o seu". Eu sorri. Aprendi o tempo das coisas. A espera é preciosa quando se realiza algo extraordinário. Estamos nos bastidores, produzindo algo que talvez só veja a luz em 2027, respeitando quem veio antes de mim. Mas, enquanto meu livro não nasce, me ofereci para ler o acervo dela, uma forma deliciosa de viver a minha aposentadoria. Gente, que grata surpresa são 209 livros! Já mergulhei em 27 deles.
Ler esse acervo tem sido um bálsamo e, ao mesmo tempo, um sacolejo.
Tem livro que a gente abre e parece que está entrando numa catedral: a beleza das palavras é tanta que a gente até respira mais devagar para não gastar o texto. A literatura tem esse dom de ensinar sem dar sermão; ela vai entrando pelas nossas frestas, mostrando que o mundo é maior que o nosso quintal. É cada ensinamento que a gente colhe, dessas sabedorias que não estão nos manuais, mas no jeito de um personagem olhar para o horizonte.
Mas não se engane, que nem tudo é mansidão.
Tem personagem que dá uma raiva tamanha, que a vontade é de entrar no papel e dar um puxão de orelha! Sofremos com as teimosias, com as escolhas tortas, e fica ali, brigando com o autor em pensamento. Mas é aí que mora a mágica: o desfecho vem e nos dá uma rasteira. Quando eu acho que já sei o final da meada, a história vira, o destino se desdobra e eu fico ali, "passada" com a capacidade que a vida (e a boa escrita) tem de nos surpreender quando a gente menos espera.
E o que falar das biografias reais que a Ana lapida? Ah, meu caro, ali o sistema é bruto. São histórias de "gente como a gente", que comeu o pão que o diabo amassou, mas que não perdeu a fibra, a fé na vida. As superações que encontro nessas páginas me fazem olhar para os meus próprios calos com mais respeito. É a prova viva de que a dor, quando contada, não só cura quem escreve, mas estende a mão para quem lê. É um ciclo de vida que se renova a cada página virada.
Então, faça um favor a você mesmo: puxe uma poltrona, sirva-se de um café fresquinho aqui de Patrocínio — o melhor café desse chão mineiro — porque a prosa está só começando. De agora em diante é dever, vou colocar toda a minha experiencia profissional a sua disposição e em crônicas (meu estilo favorito de escrita), contar um tiquinho do que encontrei no que já li.
Bem-vindos ao meu olhar.
Donatella Pontiel
Professora Universitária Aposentada | Crítica Literária ELHS
Mineira de coração, paulista de origem.
Mãe de três homens feitos. Ativa nas letras.
"Assenta aqui comigo, vamos trocar dois dedos de prosa."
"Leia como quem busca água no deserto."