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06 - Crônica: O Peso Dourado da Honra e a Leveza da Juventude
Por: Donatella Pontiel
Por Donatela Pontiel
Tem uma beleza especial em ver a juventude florescer onde a gente menos espera. Sabe quando a gente planta uma semente e, de repente, veja só, nasce uma árvore antes mesmo da gente preparar a terra?
Eu, que já vi tantas turmas passarem pelos corredores da universidade, aprendi que o talento não tem idade, mas a maturidade para conduzi-lo é um dom raro. E foi com esse pensamento no peito que recebi em minhas mãos o volume "Honra em Jogo, Dever em Risco", da jovem Halana Sarah.
Confesso que, de primeira, fiquei curiosa. Vivemos num tempo onde as telas brilham mais que as páginas, onde a febre das séries de época, como essa tal de Bridgerton que as moças comentam, parece ditar o que é o amor romântico. Não que eu tenha nada contra as telas, sô. Mas quem me conhece sabe que sou apaixonada pelo cheiro do papel, pelo peso do livro na mão, por essa conversa silenciosa que só a leitura me proporciona, daqui de minha varanda. E olhe que surpresa: esse livro não é apenas um reflexo do que se vê na televisão. É mais profundo. É como se a Halana tivesse pegado toda aquela poeira dourada dos salões europeus e trazido para dentro da alma da gente, com um pé no Brasil e outro na universalidade do sentir.
A Halana é uma menina, se posso chamar assim, com menos de vinte e cinco anos. Na minha época, a gente achava que precisava de uma vida inteira vivida para escrever sobre honra e dever. Mas ela me provou o contrário. Li no editorial da Editora que essa obra tem fôlego para grandes premiações, como por exemplo o Prêmio José Saramago. E eu, com meu chapéu de acadêmica na cabeça, digo: tem tudo para isso. Não é apenas uma história de mocinhos e bandidos, de reinos e batalhas. É um mergulho nas "dores de Ariella" e nas "ações comedidas de Philip". É sobre aquele embate que a gente conhece bem: o que o coração pede versus o que a sociedade exige.
Eu, que criei três homens feitos, sei bem o que é esse peso da honra.
Lembro quando meus filhos começaram a namorar, e eu via neles a luta entre seguir o caminho seguro, o dever de filho, de estudante, e o desejo de seguir o amor, mesmo que esse amor parecesse um risco. Queremos proteger, quer que eles joguem seguro. No entando, a vida, essa teimosa, nem sempre segue o roteiro. A Halana capturou essa nuance com uma maestria que me deixou pasma. Ela não se limita a descrever vestidos de baile ou escudos de armas; ela descreve a cura para aqueles que "não se permitem amar". E isso, meus caros, é literatura de verdade em altíssimo nível.
Agora, preciso falar sobre o objeto livro, porque aqui na ELHS não brincamos em serviço. Em nossas reuniões de pauta, com visão de editorial e de crítica literária, falamos bastante que esse projeto foi uma curadoria de experiências. E se nota. A identidade visual foi trabalhada numa simbiose entre a autora e o design. A capa, com seus ornamentos dourados e o simbolismo, não está ali só para enfeitar. Ela comunica que, nesta história, a entrega é inevitável. É como entrar numa catedral: você sente que precisa baixar o tom de voz, respeitar o espaço.
E tem um detalhe técnico que eu, que sou exigente com diagramação, preciso exaltar. Optaram por fontes serifadas de alta elegância, como a Garamond e a Baskerville. Para quem não é da área, isso faz toda a diferença, e para os que são, remete a seriedade com que a obra foi tratada. São fontes que conversam com a atmosfera histórica, que dão conforto aos olhos e permitem que a gente se perca nas linhas sem cansaço. Cada detalhe, desde os espaçamentos milimétricos nos títulos de capítulos até a folha de rosto, foi planejado para que o objeto físico seja tão precioso quanto a narrativa que ele guarda. E para os que amam a versão eletrônica, o cuidado se mantém. É puro slow burn. E quando digo slow burn, quero dizer aquela queima lenta, que não incendeia de uma vez, mas que aquece o peito e não esfria mais.
Li tudo num fôlego só — amo romances, de época então! Vixe Maria! — mas com a calma de quem degusta um vinho antigo.
A escrita da Halana é um convite ao "bom português". Num tempo onde vemos tantos erros por aí, tanta pressa em abreviar palavras, ou se escrever com recursos de IA, ela nos presenteia com a norma culta sem ser engessada. É uma ponte entre o leitor e as emoções mais profundas. Isso me lembra muito o que a Ana Caúzzo disse no editorial: "buscamos a curadoria de experiências que unam a alma da escrita ao rigor da produção editorial". E é exatamente isso que temos aqui. Não é apenas um livro nacional; é um exemplar legítimo de que a literatura de época está em excelentes mãos.
Para mim, que já li muitos livros de romance de época, por gostar do gênero e por obter conhecimento histórico, este ocupa um lugar de destaque especial, pelo brilhantismo da autora. Não só pela história, mas pelo que ele representa: a renovação.
Ver uma autora jovem, com menos de trinta anos, dominar a estrutura narrativa com tamanha segurança me dá esperança. Me faz acreditar que o futuro da nossa literatura está seguro. A Halana representa essa nova geração de escritores — aqueles que já demonstram o vigor necessário para figurar em grandes palcos, mas que não esquecem a essência do contar histórias.
E sabe o que mais me tocou? A ideia de que o embate entre honra e dever se transforma em um processo de cura. Quantos de nós não travamos essa batalha? Quantas vezes não deixamos de amar por medo do julgamento, por medo de falhar com o dever? A Ariella e o Philip nos ensinam que é possível honrar o passado sem deixar de viver o presente. Que o risco, às vezes, é o único caminho para a felicidade verdadeira.
Não leiam este livro esperando apenas um passatempo. Leiam como quem busca entender o coração humano. Leiam para ver que o amor, mesmo em tempos de reinos e rainhas, é tão atual quanto o nosso cotidiano em Minas Gerais. A obra é a prova de que a literatura nacional de época está em excelentes mãos.
Fica aqui meu convite de amiga e professora: apoiem essa jovem voz. Presenteiem quem ama um bom romance, mas quem também valoriza a qualidade editorial. Que a gente possa se permitir sentir esta jornada de transformação e entrega. Porque, no fim das contas, honra e risco são duas faces da mesma moeda, e o amor é o que decide qual lado vai ficar para cima.
Até a próxima leitura, e que a honra guie seus passos, mas que o amor aqueça seu caminho para que nunca se esqueça do seu dever.
Donatella Pontiel
Professora Universitária Aposentada | Crítica Literária ELHS
Mineira de coração, paulista de origem.
Mãe de três homens feitos. Ativa nas letras.
"Assenta aqui comigo, vamos trocar dois dedos de prosa."
"Leia como quem busca água no deserto."