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05 - Crônica: Quando o Grito Vira Canção

Por: Donatella Pontiel

Por Donatela Pontiel
Tem coisa que a gente guarda na gaveta mais funda da alma, trancada não por falta de confiança, mas por excesso de proteção. Sabe aquele momento em que o chão treme debaixo dos pés e a gente percebe que a estrutura que sustentava a vida não era concreto, era apenas vidro? Eu conheço bem esse tremor.
Já comentei de passagem, em outras prosas, que o estudo foi o que sustentou minha casa quando o marido foi embora. Mas hoje, com a coragem que só os anos e a leitura de certas obras nos dão, quero abrir um pouco mais essa fresta.
Quando ele partiu, levou não só a companhia, mas a certeza de que eu era capaz de ficar em pé. O silêncio que ficou na sala era pesado, daqueles que empurram a gente para a cama e nos fazem querer cobrir a cabeça com o lençol. Eu tinha três filhos pequenos para criar, contas para pagar e uma vergonha injusta queimando o rosto, como se o abandono fosse uma falha de caráter meu. Foi ali, no meio dos escombros de um projeto  que não deu certo, que eu entendi que a minha voz não podia morrer junto com o casamento. Eu precisava cantar, mesmo que fosse em sussurros, mesmo que fosse através dos livros e das aulas na universidade. A escrita virou meu abrigo, o lugar onde eu colocava ordem no caos do mundo, transformando a dor em texto, em aula, em vida.
Foi com essa cicatriz ainda sensível na alma que recebi o livro "A Voz que te Cala", escrito por MARIAA, com a tinta sensível da caneta de nossa Ana Caúzzo. E vou ser franca com vocês: abrir essas páginas foi como olhar para um espelho que eu evitei por muito tempo. Não porque eu tenha vivido a mesma tragédia, mas porque conheço a geografia do desamparo. Conheço o mapa de quando a gente se vê sozinha, tendo que ser pai e mãe, tendo que transformar o choro em combustível.
A história da MARIAA não é um conto de fadas, e graças a Deus que não é. Contos de fadas nos ensinam a esperar por príncipes; histórias reais nos ensinam a salvar a nós mesmas. Ela narra uma travessia dura, sô. Fala de abusos, de relacionamentos que começaram como porto seguro e viraram prisão, de um companheiro que, doente, levou consigo não só a paz, mas deixou um rastro de dívidas e processos. Tem hora que a gente lê e sente um aperto no peito, lembrando que existem mulheres trancadas em casas que deveriam ser santuários, mas que viraram campos de batalha.
O que me impressionou, como educadora e mulher, foi a honestidade brutal do relato. Não há vitimização vazia. Há relato de dor, sim, mas há também a prestação de contas da própria sobrevivência. Ela fala do medo da Lei Maria da Penha, não para diminuí-la, mas para alertar sobre a responsabilidade de usá-la. Isso me tocou profundamente. Na academia, aprendemos que a verdade é o primeiro degrau da justiça. E a MARIAA não poupou detalhes: falou do suicídio do agressor, do peso das dívidas que ficaram, do pânico que a deixou paralisada por anos. É uma radiografia de uma alma que foi quebrada e teve que se colar peça por peça. 
E sabe qual foi a ferramenta que ela usou para se reencontrar? A música. Enquanto eu usei a escrita e a cátedra para colocar ordem no meu caos, ela usou o violão e a composição. Li sobre a mentoria com a mestra Fátima Leão e senti uma alegria genuína. Há algo de sagrado quando a arte deixa de ser apenas entretenimento e vira remédio. Ela conta que os dedos travaram no violão durante o trauma, e que voltaram a se mexer quando a cura começou. Isso é poesia pura, é a vida dizendo que o corpo guarda a memória, mas também guarda a capacidade de renascer.
A conexão comigo e com a Ana  fica evidente na estrutura do livro. Conheço o rigor da biografa. Sei que ela não pega uma história dessas para enfeitar. Ela pega para lapidar, para dar dignidade. A narrativa tem o selo da verdade, aquela que dói mas liberta. Ver a MARIAA falar do filho, o Bruno, que cresceu no meio da tempestade e hoje é um homem íntegro, me fez lembrar dos meus três homens. A gente faz tudo por eles, aguenta o incomportável, engole sapos, só para ver eles florescendo lá na frente. O sucesso do Bruno é a vitória silenciosa dela, maior que qualquer prêmio musical.
Outro ponto que preciso destacar, com meu chapéu de pesquisadora na cabeça, é a transparência sobre o sistema jurídico e financeiro. Ela não esconde que ficou presa a dívidas por anos, que o banco não teve misericórdia, que a burocracia muitas vezes ignora a violência psicológica. Isso é importante para a sociedade entender. A lei é um escudo, mas às vezes a engrenagem é fria. O livro serve também como um manual de alerta, um guia do que não fazer, e do onde buscar ajuda quando o muro começa a cair.
Mas quero ir além da história individual. Preciso falar sobre o lugar que obras como esta ocupam na literatura brasileira. Vivemos num tempo onde a ficção muitas vezes nos afasta da realidade, nos vende mundos idealizados que não existem no chão da fábrica ou na sala de estar de uma casa em Pouso Alegre. Livros assim, biografias reais, documentais, são vitais porque eles ancoram a nossa cultura na verdade. Eles impedem que a memória se perca. Quando a Editora publica um testemunho como esse, não está apenas vendendo papel ou arquivos eletrônicos; está criando um arquivo histórico da resistência da mulher brasileira. É literatura que não tem medo de se sujar com a vida real.
E isso me leva a refletir sobre a importância das biografias. Muita gente torce o nariz, acha que só a ficção é "arte pura". Eu discordo. A biografia é o encontro do singular com o universal. Quando leio a dor da MARIAA, eu leio a dor de milhões e inclusive a minha. A biografia valida o sofrimento alheio. Ela diz: "Você não está louca, isso aconteceu, e você pode sobreviver". Num país onde a violência doméstica é uma chaga silenciosa, ter essas histórias registradas é um ato de saúde pública necessário. É transformar o grito isolado em coro organizado. É permitir que a menina que está sendo calada hoje encontre, numa estante daqui a dez anos, a prova de que é possível sair do outro lado.
Já li quase trinta dos 209 livros do acervo da ELHS, e cada um me mostra uma faceta diferente da resistência humana. Mas este, "A Voz que te Cala", tem um lugar reservado na minha cabeceira. Ele me lembrou que o abandono não é o fim. Quando o marido foi embora, eu achei que minha história tinha acabado. Hoje vejo que foi apenas o fim de um capítulo ruim, para que eu pudesse escrever os melhores depois. Com a MARIAA foi igual: o silêncio que tentou calá-la virou canção, e essa canção agora alcança pessoas que nem imaginamos.
Tem um detalhe que me prendeu nessas páginas, sô, e que toca diretamente na minha visão de educadora. É o momento em que a dor vira arte de verdade, sem enfeite. Li sobre o nascimento da música "Chega de Dramas" ouvi a música também. Isso me tocou porque mostra que o fim do sofrimento não é só o silêncio, é o canto. A MARIAA não apenas sobreviveu ao suicídio do agressor e às dívidas que ficaram; ela afinou o próprio instrumento interior. Como acadêmica, vejo aqui a arte-terapia em sua forma mais bruta: transformar o trauma em melodia que ajuda outras mães, como na causa do autismo. É a prova de que o nosso dom não morre com a tragédia; ele espera o tempo certo para ressurgir, tal qual uma fênix que aprendeu a compor o próprio voo.
E preciso falar com a seriedade que o tema pede, especialmente sobre a Lei Maria da Penha. No posfácio, a Ana Caúzzo traz um equilíbrio necessário que poucas obras têm a coragem de mostrar. A lei é escudo, sim, mas não pode ser espada para injustiças. Eu, Donatela vejo muito disso: a ferramenta jurídica precisa de responsabilidade. A obra não esconde que houve dívidas, coação e um contrato assinado sob ameaça. Isso nos ensina que a justiça tarda, mas a verdade sempre vem à tona. É um alerta para que a gente use a proteção sem esquecer a ética, honrando quem realmente precisa do amparo do Estado e não descredibilizando a luta de quem sofre de verdade.
"Por fim, quero que saibam que não estão sós." O livro oferece uma rede de apoio, um canal onde o silêncio imperava e agora floresce a conexão. Se você se identificou com esse relato, saiba que há mãos estendidas. A missão da autora é essa: fazer da dor um coro, não um lamento solitário. Que possamos, como a MARIAA, encontrar o tom da própria liberdade. Porque quando a gente conta a nossa dor, realmente, produzimos cura.
Não leiam este livro procurando por culpas. Leiam procurando por força. Leiam se você sente que está preso em um relacionamento que te diminui, ou se você conhece alguém que está calado demais. Às vezes, a palavra certa no momento certo é o que impede uma tragédia. A arte tem esse poder de nos dizer: "Você não está sozinho, eu também passei por isso, e olhe aqui, eu sobrevivi".
Fica aqui meu convite de amiga: ouçam essa voz. Deixem que ela ecoe na sua sala, no seu quarto, no seu coração. Que a gente possa aprender que, mesmo quando tudo parece perdido, ainda há uma melodia esperando para ser tocada. E que a gente nunca, jamais, deixe de cantar a nossa própria liberdade.
Um abraço acolhedor, e que a sua voz nunca se cale.
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