12 - Crônica: Cartas que Revelam a Alma: Quando a Juventude Encontra a Sabedoria
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Tem carta que a gente escreve e joga fora, e tem carta que a gente escreve e guarda pra sempre. Sabe aquelas folhas de caderno onde a gente despeja o coração sem medo de ser feliz? Onde a letra sai tremida, a lágrima molha o papel, mas a verdade sai inteira, sem filtro? Eu, que já guardei tantas cartas de alunos ao longo dos meus anos na universidade, aprendi que às vezes é no papel simples, sem enfeite, que mora a literatura de verdade. E foi com essa expectativa no peito que abri "A História que Eu Nunca Contei", da jovem Elizandra Souza.
Dezesseis, dezessete, dezoito anos. Tem gente que acha que nessa idade a vida é só festa, só sonho, só ilusão. Mas quem tem olhos de ver sabe que é justamente nessa fase que a alma mais dói, que o coração mais se questiona, que a gente mais precisa colocar pra fora o que sente. E a Elizandra, com apenas 18 anos, teve a coragem de fazer isso. Não num diário trancado na gaveta, mas num livro. Num livro que hoje é um dos tesouros do acervo da ELHS.
Eu, que já vi tantas turmas passarem pelos corredores da minha vida, conheço bem esse perfil de aluna brilhante. A Elizandra não foi só mais uma. Ela foi aluna do PHS (Projeto Histórias de Sonhos), foi voluntária IHS, (Instituto Histórias de Sonhos) e se tornou uma das primeiras autoras da nossa editora. Isso não é detalhe, sô. Isso é semente que foi plantada, regada, e que floresceu no tempo certo. É case de sucesso do Grupo Histórias de Sonhos, sim, mas é, acima de tudo, prova de que quando a gente aposta na juventude, a colheita é farta.
O que me encantou nessa obra foi a forma epistolar. Cartas.
A Elizandra escolheu escrever como quem conversa, como quem desabafa com um amigo de confiança. Não é narrativa fria, não é texto acadêmico engessado. É coração aberto. É a "Colecionadora de Palavras" — como ela mesma se define — pegando cada sentimento, cada dúvida, cada angústia da juventude e transformando em literatura. E que literatura! Tem frase ali que eu, com meus sessenta e tantos anos e tanta estrada percorrida, assino embaixo.
Como acadêmica aposentada, já li muita coisa sobre literatura juvenil, sobre escrita epistolar, sobre o gênero confessional. Tem teoria pra tudo, né? Mas tem uma distância entre o que se estuda e o que se vive. Aqui, não. Aqui a gente sente a pulsação. A autora não está escrevendo sobre o que leu nos livros; está escrevendo o que criou na ficção deixando marcas de seu DNA. E isso faz toda a diferença. É a diferença entre falar sobre a dor e sentir a dor para escrever. Entre contar uma história e ser a história. Não podiamos esperar nada diferente dela, pois ja mostrava traços de seu brilhantismo e genialidade de escrita desde o ensino fundamental, afirma professora Maria José de Lingua Portuguesa ao ler seu livro ainda em manuscrito.
Eu, que já li mais de cinquenta livros deste acervo da ELHS, posso afirmar: este tem seu lugar de destaque. Não pela complexidade da trama ou pela sofisticação do vocabulário — embora a jovem autora já demonstre um domínio impressionante da palavra. Tem um lugar especial pela autenticidade. É raro encontrar alguém tão jovem com tanta coragem de se expor na escrita ficcional para traduzir sentimentos tão nobre como a Amizade e o amor fraternal. E isso, meus caros, é para poucos.
A escolha da forma epistolar foi genial. Carta é intimidade. Carta é confiança. Quando a gente escreve uma carta, a gente escolhe as palavras com mais cuidado, porque sabe que elas vão ficar registradas, vão ser lidas e relidas. A Elizandra soube usar isso a seu favor. Cada carta é um capítulo da alma, um pedaço da jornada de descobertas, de dores, de superações. É como se ela estivesse sentada na nossa frente, tomando um café, e nos contando tudo, sem pressa, sem medo.
Tem um ponto que preciso destacar com meu olhar de educadora. A trajetória da Elizandra — de aluna PHS a voluntária IHS, de voluntária a autora publicada — é um exemplo do poder transformador da educação e da literatura. Mostra que o projeto não é só teoria, é prática. Não é só discurso, é ação. O Grupo Histórias de Sonhos e seus inumeros profissinais de bastidores, plantaram essa semente, e a Elizandra, com seu talento e dedicação, fez ela florescer. E agora, com este livro, ela planta novas sementes em outros corações.
Eu, que já vi tantos alunos talentosos se perderem pelo caminho por falta de oportunidade, me encho de orgulho ao ver uma jovem como a autora brilhando. Ela é prova de que a juventude tem voz, tem valor, tem muito a dizer. E quando a gente dá espaço para essa voz ser ouvida, o resultado é esse: literatura de qualidade, história que inspira, exemplo que fica.
A Elizandra se define como "Colecionadora de Palavras". E que bela definição! Porque é isso que nós, amantes da literatura, somos. Colecionadores de frases, de versos, de trechos que nos tocam. A diferença é que a Elizandra, com apenas 18 anos a época, não só colecionou, como organizou sua coleção e transformou em presente para o mundo. Isso é maturidade literária. Isso é dom. Que venham outros, muitos outros livros, ficcionais ou temáticos, poéticos ou narrativos...
Para mim, este livro é um lembrete de que nunca é cedo demais para começar. Nunca é cedo demais para escrever, para publicar, para deixar sua marca no mundo. A autora, ao nascer para o mundo literário, não esperou ter "vivido mais", não esperou ter "mais experiência". Ela escreveu o que tinha para escrever no tempo que tinha para escrever. E o resultado é esse: uma obra fresca, sincera, necessária.
Não leiam este livro esperando complexidade desnecessária ou linguagem rebuscada. Leiam esperando verdade. Leiam para se lembrar de como era ter 18 anos, de como o coração batia forte, de como as palavras pareciam ter mais peso. Leiam para se inspirar na coragem de uma jovem que não teve medo de contar a história que nunca havia contado.
Fica aqui meu convite de professora e colecionadora de alunos brilhantes: conheçam a Elizandra Souza. Deixem que as cartas dela toquem o coração de vocês. Que a gente possa aprender que não importa a idade, o que importa é a autenticidade. E quem sabe, ao ler essa história, você não encontre coragem para escrever a sua própria carta, para contar a sua própria história?
Até a próxima leitura, e que suas cartas sejam sempre de amor e verdade.
Donatella Pontiel
Professora Universitária Aposentada | Crítica Literária ELHS
Mineira de coração, paulista de origem.
Mãe de três homens feitos. Ativa nas letras.
"Assenta aqui comigo, vamos trocar dois dedos de prosa."
"Leia como quem busca água no deserto."