07 - Crônica: O Portal que Revela os Espinhos
Por: Donatella Pontiel
Dizem por aí que nem tudo que reluz é ouro, mas eu, com os anos que já carreguei nas costas, aprendi uma lição mais dura: nem tudo que floresce é fruto. Tem jardim que a gente admira de longe, cheio de cores, parece um pedaço do céu na terra, mas quando a gente se aproxima, descobre que as rosas têm espinhos capazes de ferir a alma, não só a pele. A vida, meus caros, tem dessas armadilhas. A gente constrói uma fachada de felicidade, pinta a casa de cores vivas, sorri nas fotos de família, e por dentro, o silêncio grita. Foi pensando nessa arquitetura do engano que peguei para ler "No Paraíso, vivi entre flores e espinhos", da escritora Vera Regina Rodrigues.
Eu, que já vi muitas alunas chegarem à universidade com o sorriso pronto e o olhar vago, sei bem o peso de manter as aparências. Quando o marido foi embora, levei um tempo para entender que o "paraíso" que eu achava que vivia era, na verdade, um cenário montado. A gente se acostuma com o gelo no peito e chama de normalidade. E é exatamente sobre essa normalidade perigosa que a Vera Regina escreve. Com a autoridade de quem é acadêmica em duas academias de letras, ela não vem com conto de fadas. Vem com o realismo cru, aquele que dói, mas que limpa a ferida.
O livro é o volume 04 de 24 da "Série Sentimentos", e já aviso: não é leitura para quem busca apenas passar o tempo. É um instrumento de consciência. A autora utiliza a metáfora do "Paraíso" para explorar as complexidades das relações humanas, equilibrando a beleza das "flores" com a dor cortante dos "espinhos". A capa, com esse portal de pedra se abrindo para um caminho ensolarado, é um convite genial. Porque é exatamente isso que o narcisista faz: abre um portal de luz para te prender na escuridão. A Vera Regina desconstructs essa perfeição aparente, revelando as cicatrizes deixadas pelos abusos psicológicos.
E que peso tem essa obra, sô! Não é qualquer livro que nasce e já ganha o mundo. Em 2024, essa obra foi destaque nos maiores eventos literários do país: a Bienal Internacional de São Paulo, a Bienal de Salvador e a FELIB em Brasília em 2025. Quando vi isso, senti um orgulho danado. É a prova de que a literatura nacional, quando feita com rigor e verdade, tem lugar de destaque. E tem mais: pela sua importância temática e literária, o livro agora integra o acervo da Biblioteca Nacional Brasileira. Isso não é detalhe, é patrimônio. É dizer que essa história importa para a memória do nosso povo.
Como acadêmica, valorizo imensamente o rigor da Vera. Ela não fala de ouvido. O tema central é o transtorno narcisista, uma abordagem corajosa sobre como personalidades manipuladoras constroem cenários de "paraíso" para aprisionar emocionalmente suas vítimas. Quantas de nós não entramos nesse portal achando que era amor, e descobrimos que era posse? A autora nos mostra que a cura não é um destino final, mas uma travessia. É sair do abismo e se amar, mesmo com as cicatrizes.
Eu, que já li mais de quarenta livros deste acervo da ELHS, vejo nesta obra um manual de sobrevivência. No editorial, vemos: "é um convite à reflexão profunda sob a ótica do realismo mais autêntico". E é verdade. A Vera Regina utiliza sua pena para dar voz ao invisível, transformando dor em literatura de alta qualidade e utilidade pública. Num mundo onde as aparências frequentemente mascaram abusos psicológicos silenciosos, ter um livro assim é como ter um mapa quando se está perdido na floresta.
Para mim, este livro ocupa um lugar de reverência na estante ja emprestei e reimprestei. Não é uma leitura confortável, confesso. Há momentos em que precisamos pausar, respirar, porque a verdade dói. Mas é exatamente esse desconforto que nos tira da zona de conforto e nos faz olhar para o lado. Quantas Veras não estão caladas ao nosso redor? Quantos "paraísos" não são, na verdade, prisões douradas?
Não leiam este livro como quem lê uma fofoca.
Leiam como quem busca entender a dinâmica do narcisismo através de uma escrita visceral e autêntica. Leiam para ver que o amor verdadeiro não precisa de máscaras, nem de portais enganosos. A obra é a prova de que a literatura pode ser um farol na escuridão, mas aqui, o farol é a própria verdade nua e crua.
Fica aqui meu convite de amiga e professora: apoiem este livro. Presenteiem quem precisa entender que os espinhos não definem o jardim, mas é preciso saber lidar com eles para não se ferir. Que a gente possa atravessar esse portal literário e sair do outro lado mais forte, mais consciente e mais livre.
Até a próxima leitura, e que o seu paraíso seja de verdade, sem espinhos escondidos.
Donatella Pontiel
Professora Universitária Aposentada | Crítica Literária ELHS
Mineira de coração, paulista de origem.
Mãe de três homens feitos. Ativa nas letras.
"Assenta aqui comigo, vamos trocar dois dedos de prosa."
"Leia como quem busca água no deserto."