207 blog O Portal GHS

VOLTAR À ELHS
← VOLTAR AO PORTAL

07 - Crônica: O Portal que Revela os Espinhos

Por: Donatella Pontiel

Dizem por aí que nem tudo que reluz é ouro, mas eu, com os anos que já carreguei nas costas, aprendi uma lição mais dura: nem tudo que floresce é fruto. Tem jardim que a gente admira de longe, cheio de cores, parece um pedaço do céu na terra, mas quando a gente se aproxima, descobre que as rosas têm espinhos capazes de ferir a alma, não só a pele. A vida, meus caros, tem dessas armadilhas. A gente constrói uma fachada de felicidade, pinta a casa de cores vivas, sorri nas fotos de família, e por dentro, o silêncio grita. Foi pensando nessa arquitetura do engano que peguei para ler "No Paraíso, vivi entre flores e espinhos", da escritora Vera Regina Rodrigues.
Eu, que já vi muitas alunas chegarem à universidade com o sorriso pronto e o olhar vago, sei bem o peso de manter as aparências. Quando o marido foi embora, levei um tempo para entender que o "paraíso" que eu achava que vivia era, na verdade, um cenário montado. A gente se acostuma com o gelo no peito e chama de normalidade. E é exatamente sobre essa normalidade perigosa que a Vera Regina escreve. Com a autoridade de quem é acadêmica em duas academias de letras, ela não vem com conto de fadas. Vem com o realismo cru, aquele que dói, mas que limpa a ferida.
O livro é o volume 04 de 24 da "Série Sentimentos", e já aviso: não é leitura para quem busca apenas passar o tempo. É um instrumento de consciência. A autora utiliza a metáfora do "Paraíso" para explorar as complexidades das relações humanas, equilibrando a beleza das "flores" com a dor cortante dos "espinhos". A capa, com esse portal de pedra se abrindo para um caminho ensolarado, é um convite genial. Porque é exatamente isso que o narcisista faz: abre um portal de luz para te prender na escuridão. A Vera Regina desconstructs essa perfeição aparente, revelando as cicatrizes deixadas pelos abusos psicológicos.
E que peso tem essa obra, sô! Não é qualquer livro que nasce e já ganha o mundo. Em 2024, essa obra foi destaque nos maiores eventos literários do país: a Bienal Internacional de São Paulo, a Bienal de Salvador e a FELIB em Brasília em 2025. Quando vi isso, senti um orgulho danado. É a prova de que a literatura nacional, quando feita com rigor e verdade, tem lugar de destaque. E tem mais: pela sua importância temática e literária, o livro agora integra o acervo da Biblioteca Nacional Brasileira. Isso não é detalhe, é patrimônio. É dizer que essa história importa para a memória do nosso povo.
Como acadêmica, valorizo imensamente o rigor da Vera. Ela não fala de ouvido. O tema central é o transtorno narcisista, uma abordagem corajosa sobre como personalidades manipuladoras constroem cenários de "paraíso" para aprisionar emocionalmente suas vítimas. Quantas de nós não entramos nesse portal achando que era amor, e descobrimos que era posse? A autora nos mostra que a cura não é um destino final, mas uma travessia. É sair do abismo e se amar, mesmo com as cicatrizes.
Eu, que já li mais de quarenta livros deste acervo da ELHS, vejo nesta obra um manual de sobrevivência. No editorial, vemos: "é um convite à reflexão profunda sob a ótica do realismo mais autêntico". E é verdade. A Vera Regina utiliza sua pena para dar voz ao invisível, transformando dor em literatura de alta qualidade e utilidade pública. Num mundo onde as aparências frequentemente mascaram abusos psicológicos silenciosos, ter um livro assim é como ter um mapa quando se está perdido na floresta.
Para mim, este livro ocupa um lugar de reverência na estante ja emprestei e reimprestei. Não é uma leitura confortável, confesso. Há momentos em que precisamos pausar, respirar, porque a verdade dói. Mas é exatamente esse desconforto que nos tira da zona de conforto e nos faz olhar para o lado. Quantas Veras não estão caladas ao nosso redor? Quantos "paraísos" não são, na verdade, prisões douradas?

Não leiam este livro como quem lê uma fofoca.

Leiam como quem busca entender a dinâmica do narcisismo através de uma escrita visceral e autêntica. Leiam para ver que o amor verdadeiro não precisa de máscaras, nem de portais enganosos. A obra é a prova de que a literatura pode ser um farol na escuridão, mas aqui, o farol é a própria verdade nua e crua.
Fica aqui meu convite de amiga e professora: apoiem este livro. Presenteiem quem precisa entender que os espinhos não definem o jardim, mas é preciso saber lidar com eles para não se ferir. Que a gente possa atravessar esse portal literário e sair do outro lado mais forte, mais consciente e mais livre.
Até a próxima leitura, e que o seu paraíso seja de verdade, sem espinhos escondidos.

Rolar para cima