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11 - Crônica: Raízes que Cantam: Quando a Bahia Encontra Minas

Por: Donatella Pontiel

Tem música que a gente ouve e tem música que a gente sente no osso. Sabe quando o violão começa a tocar num canto da sala e, sem você perceber, o pé já está batendo no chão, o corpo já está balançando, e o coração já está viajando para um lugar que você nem conhece direito?

Eu, que nasci em São Paulo mas criei raízes em Minas Gerais, aprendi que o Brasil é grande demais para caber num só sotaque. E foi deixando o coração abrir essas portas que mergulhei em "Entre Acordes e Histórias: A Autobiografia de um Artista Baiano", de Afra Nascimento.

Confesso que, de primeira, fiquei curiosa. Minas e Bahia sempre tiveram essa conversa antiga, né? O trem que sobe e desce a serra, o queijo que encontra o dendê, o congado que se mistura com o afoxé. Somos primos de cultura, separados por uma divisa no mapa, mas unidos pelo mesmo sangue quente. E o Afra, nesse livro, faz exatamente isso: constrói uma ponte entre o que é seu e o que é nosso. Ele não canta só a Bahia; ele canta o Brasil. E isso me tocou fundo.

Eu, que  criei filhos homens aqui nessas terras mineiras, sempre tentei ensinar que o mundo é maior que o nosso quintal. Meus filhos cresceram ouvindo moda de viola, mas também ouviram Gilberto Gil, Caetano, Djavan. A música não tem fronteiras, e a história de vida de um artista como o Afra prova isso. Ler a autobiografia dele foi como sentar numa roda de samba em Salvador, mesmo eu estando aqui em Patrocínio, com meu café na mão. A proximidade que ele cria com o leitor é essa: íntima, calorosa, sem cerimônia.

O que me prendeu nessa leitura foi a honestidade de quem conta a própria trajetória sem enfeite. Autobiografia é um gênero delicado, sô. Tem gente que escreve para se exaltar, para mostrar que venceu, que chegou lá. O Afra escreve para compartilhar. Ele não esconde os perrengues, os dias de fome, as portas que se fecharam, os instrumentos que teve que deixar para trás por falta de recurso. E é justamente essa vulnerabilidade que torna a obra poderosa.

Como professora universitária, já li muitas biografias. Tem as que impressionam pelo currículo, e tem as que impressionam pela alma. Esta é das que ficam na alma.

A estrutura do livro me lembrou muito uma composição musical. Tem movimento lento, tem aceleração, tem refrão, tem ponte. Cada capítulo é como uma faixa de disco: você pode ouvir isolado, mas faz mais sentido quando escuta o álbum completo.

O Afra domina essa arte. Ele sabe quando acelerar o texto, quando deixar o leitor respirar, quando entrar com um acorde mais emocionante. Isso não é acaso; é ofício. É anos de estrada transformados em palavra escrita.

E preciso falar sobre a Bahia. Não a Bahia de cartão postal, mas a Bahia real, de quem acorda cedo, de quem luta, de quem transforma dor em arte. O Afra nos leva para dentro dessa realidade. Mostra que o artista popular não é apenas entretenimento; é cronista do seu tempo, é guardião da memória, é voz de quem não tem microfone. Quantas histórias não estão guardadas num violão? Quantas gerações não aprenderam sobre amor, sobre perda, sobre resistência através de uma canção?

Para mim, que já li mais de cinquenta livros deste acervo da ELHS, esta obra tem um lugar de afeto. Ela me fez lembrar que a arte não precisa de grandes palcos para ser verdadeira. Às vezes, o show mais bonito acontece numa sala pequena, com cinco pessoas ouvindo atentamente.

O livro é isso: um show intimista, onde o Afra canta sua história e nos convida a cantar junto. E quando terminamos a leitura, fica aquele silêncio gostoso de quem acabou de ouvir uma boa música e não quer aplaudir para não quebrar o encanto.

Como educadora, vejo neste livro uma ferramenta valiosa. Quantos alunos não poderiam se inspirar numa trajetória como essa? Jovens que acham que o sonho é grande demais para o tamanho da sua cidade, que o talento não vale nada sem indicação, que a arte não põe mesa. O Afra vem e diz: "É possível, sim". Não é fácil, não é rápido, mas é possível. E essa mensagem tem um valor que não se mede em página ou em capítulo.
Tem um ponto que preciso destacar com meu olhar de crítica. A obra não cai no saudosismo barato. Ela honra o passado, mas não vive dele.

O cantor, compositor e instrumentista mostra que a tradição precisa se renovar, que o artista precisa se reinventar, que a música é um organismo vivo que respira com o tempo. Isso é maturidade artística. É saber de onde veio sem perder para onde está indo. E isso serve para qualquer profissão, qualquer vida, qualquer sonho.

Eu, que já vi tantos alunos desistirem no meio do caminho por achar que não eram bons o suficiente, vejo neste livro um convite à persistência. O Atista não nasceu pronto. Ele se fez. E se fez com erro, com acerto, com queda, com levante. E é exatamente isso que a vida pede da gente: que a gente se faça, dia após dia, acorde após acorde.

Não leiam este livro como quem lê um currículo artístico. Leiam como quem escuta um amigo contando causos numa tarde de domingo. Leiam para entender que a arte é um caminho de mão dupla: quem canta também aprende, quem ensina também recebe. E que as raízes, quando são bem cuidadas, dão frutos que alimentam gerações.

Fica aqui meu convite de professora e apreciadora da boa música: conheçam a história do Afra. Deixem que os acordes dele afinem o seu ouvido para o que realmente importa.

Que a gente possa aprender que não importa de onde a gente vem, mas para onde a gente leva a nossa voz. E quem sabe, ao ler essa história, você não encontre coragem para cantar a sua própria canção?

Até a próxima melodia, e que as suas raízes sejam sempre motivo de canto.

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