← VOLTAR AO PORTAL
08 - Crônica: O Segredo por Trás da Nota Certa
Por: Donatella Pontiel
Há sons que a gente ouve com o ouvido e tem os que a gente escuta com a alma. Sabe quando você passa por uma rua e uma música escapa de uma janela aberta? Você nem vê quem está cantando, mas o peito aperta, a memória acende e você para, mesmo que por um segundo, para prestar atenção. Eu, que vivo cercada de livros e papéis na universidade, aprendi que o silêncio é importante, mas é o som que nos conecta. E foi buscando entender essa conexão que mergulhei no compacto de Solanje Oliveira, dentro da proposta "A Arte de Cantar e Encantar".
Confesso que, de primeira, o tamanho do ebook me intrigou. Na minha vida de mãe e professora, aprendi que as coisas mais importantes muitas vezes vêm em embalagens simples. O bolo mais gostoso não é o maior, é o que tem o tempero certo. E a Solanje tem esse tempero. Ela não enche linguiça com teorias intermináveis. Ela vai direto ao ponto, como quem afina um violão antes do show: testa a corda, vê se está no tom e começa. Mas não se engane, sô. Essa brevidade esconde uma profundidade que a gente só descobre quando vira a última página e percebe que ficou algo ecoando aqui dentro.
O que me prendeu nessa leitura não foi apenas a técnica, mas a história que se esconde nas entrelinhas. A Solanje não fala só de como emitir a voz; ela fala de como entregar a alma. Há um momento no texto em que ela revela um detalhe da própria jornada que me fez parar o café no meio do caminho. Não vou contar tudo aqui, porque segredo revelado perde a graça, mas digamos que há uma superação silenciosa por trás da melodia. É como descobrir que a flor que você admira nasceu num chão de pedra. Saber disso muda a forma como você olha para o jardim. E é isso que gera a curiosidade: qual foi o preço pago por essa arte? Qual o segredo que ela guarda nas notas que canta?
Como acadêmica, vejo muitos manuais que ensinam o "como fazer". Mas a Solanje ensina o "como sentir". Ela entende que cantar é um ato de vulnerabilidade. É se expor. E nisso, ela toca numa ferida que muitos artistas têm: o medo de não ser suficiente. A forma como ela lida com isso, transformando a insegurança em potência, é uma aula que vai muito além da música. Serve para quem escreve, para quem leciona, para quem vive. É sobre encontrar a própria voz num mundo que grita demais.
E aqui entra um ponto que preciso destacar com meu olhar de crítica. A obra desperta um desejo de mais. Quando terminamos de ler, fica aquela pulga atrás da orelha: "Se este compacto já me tocou assim, o que mais ela tem guardado?". É a curiosidade humana funcionando. A gente não quer só a informação; quer a experiência completa. A Solanje deixa portas entreabertas, convites para quem quiser se aprofundar nessa arte de encantar. E isso é inteligente. É como servir um doce na entrada do jantar: você prova, gosta, e já quer saber o que vem no prato principal.
Eu, que já li dezenas de obras neste acervo, percebo que os livros que marcam são aqueles que não respondem todas as perguntas. Eles deixam um espaço para o leitor completar com a própria imaginação. A Solanje faz isso com maestria. Ela dá a técnica, mas guarda o mistério do dom. E é esse mistério que nos faz querer buscar os outros volumes, conhecer outras vozes, entender como cada artista constrói seu próprio caminho de encanto. Não é sobre copiar; é sobre se inspirar para encontrar o seu próprio tom.
Para mim, este fascículo ocupa um lugar de carinho na estante. Não pelo peso em gramas, mas pelo peso em sentimentos. Ele me lembrou que a arte não precisa ser complicada para ser profunda. Às vezes, o simples é o mais difícil de fazer. Cantar uma nota certa é fácil; cantar com verdade é para poucos. E a Solanje está entre esses poucos. Ela nos convida a não ter medo da nossa própria voz, mesmo que ela trema no começo.
Não leiam este compacto como quem busca uma receita de bolo pronta. Leiam como quem busca entender a química do sabor. Leiam para descobrir qual é o ingrediente secreto que transforma som em música e música em encanto. E fiquem atentos, porque quando a gente encontra uma voz que nos ensina a cantar, a gente quer ouvir tudo o que ela tem a dizer. O que mais estará reservado nos próximos capítulos dessa jornada?
Fica aqui meu convite de amiga e ouvinte: descubram a história da Solanje. Deixem que ela afine o seu ouvido para o que realmente importa. Que a gente possa aprender que todos temos uma canção interna, e que às vezes, só precisamos de alguém para nos mostrar como soltá-la. E quem sabe, qual não será a próxima melodia que nos espera logo ali, na próxima página?
Até a próxima escuta, e que a sua voz nunca perca o encanto.
Donatella Pontiel
Professora Universitária Aposentada | Crítica Literária ELHS
Mineira de coração, paulista de origem.
Mãe de três homens feitos. Ativa nas letras.
"Assenta aqui comigo, vamos trocar dois dedos de prosa."
"Leia como quem busca água no deserto."