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03: Quando a Linha da Vida Pede Socorro

Por: Donatella Pontiel

Tem dia que a gente acorda e o silêncio da casa pesa diferente. Não é aquele silêncio de paz, de quem tomou o café e vai começar o dia com o pé direito. É um silêncio de espera, como se o ar estivesse prendendo a respiração junto com a gente. Quem é mãe sabe bem do que estou falando. A gente cria os filhos, ensina o caminho da escola, passa a mão na testa quando tem febre, mas tem uma hora que o coração dá um salto na garganta e a gente percebe: o mundo lá fora não pede licença para entrar.
Eu queria dividir com vocês um momento que, até hoje, faz minhas mãos suarem frio de lembrança.
Meu caçula, quando era ainda um menino de pouca idade, engasgou. Foi num instante, durante o almoço. A comida foi pelo caminho errado e o ar faltou. O tempo, que já disse ser um bicho engraçado, naquele momento parou de correr e virou pedra. Eu, que sempre tive os livros como abrigo, me vi desnuda diante da realidade. Não havia poesia que salvasse ali, só havia ação. Graças a Deus, deu tudo certo, mas aquele susto ficou gravado na minha alma como uma cicatriz que não dói, mas lembra.
Foi com essa memória viva no peito que abri o manual organizado por Robson Rodrigues Teixeira, publicado pela nossa Histórias de Sonhos - ainda em manuscrito. Confesso que, de primeira, fiquei receosa.
Sou acadêmica, acostumada com textos densos, mas também sou mulher de casa, e sei que manual técnico, muitas vezes, tem cara de coisa distante, fria, que só gente de jaleco entende. Mas me enganei feio. Ao virar as páginas, me deparei com um cuidado que vai além da ciência; é um cuidado de quem ama o próximo.
As ilustrações, feitas à mão, são um capítulo à parte, você precisa ver. Elas não estão ali só para enfeitar, estão ali para pegar na nossa mão e guiar. Quando o assunto é desobstrução de vias aéreas ou manobras críticas, o desenho humaniza o procedimento. Tira o peso do medo e coloca no lugar a clareza. É como se o livro dissesse: "Calma, Dona Maria, respira senhor José, a senhora e o senhor também conseguem fazer isso". Essa escolha estética não é bobagem não; é uma ponte entre o saber médico e o saber popular, entre o hospital e a sala de estar da nossa casa.
E não se trata apenas de boa vontade. Tem ciência de ponta nisso. O material segue as Diretrizes de 2025 da American Heart Association. Para quem está na universidade, como eu na UEMG, sabe o valor que tem seguir protocolo atualizado. Isso não é detalhe, é o que separa a ajuda do prejuízo.
A autoridade do texto vem dessa base sólida, validada por profissionais de elite, como os do SAMU e outros médicos e enfermeiros tão qualificados quanto o autor. É a certeza de que, se precisar usar o que está escrito ali, estará fazendo o certo. Isso me trouxe uma tranquilidade que eu nem sabia que precisava.
Mas o que mais me tocou, e fez os olhos marejarem novamente, foi perceber que o livro não trata apenas do corpo. Ele trata da alma de quem socorre e de quem é socorrido.
Há seções dedicadas ao cuidado psicológico e à ética. Porque quem presta socorro também carrega um peso, e quem recebe precisa ser tratado com dignidade, não como um caso clínico. Isso eleva o socorrista, seja ele profissional ou um pai de família, à categoria de agente de empatia. É o dever cívico transformado em ato de amor. Foi exatamente aqui que o autor me ganhou.
Essa obra me fez refletir sobre o lema que Editora LLHS tanto defende: "Quando eu conto a minha dor, eu produzo cura". Aqui, a dor é o susto, é a possibilidade da perda. E a cura vem através da informação. Informação salva vidas, não é clichê de filme não, é verdade do cotidiano. Ter esse manual em casa é como ter um seguro contra a omissão e o pânico. É transformar o medo em preparo.
Já li 27 dos 209 livros do acervo da ELHS, e cada um me surpreende de um jeito. Tem os que emocionam pela história, tem os que ensinam pela técnica. Este, porém, tem um lugar especial. Ele é o guarda-chuva para dias de tempestade. A literatura tem esse dom, gente: ela entra pelas frestas e nos prepara para o inverno, mesmo quando estamos no verão.
Não quero que vocês leiam este livro com medo do imprevisto. Quero que leiam com a certeza de que são capazes de proteger quem amam. A vida é uma linha tênue, mas podemos fortalecê-la com conhecimento. O saber não ocupa espaço, mas ocupa um lugar de honra na nossa estante e na nossa consciência.
Então, fica aqui meu conselho de quem já viu o tempo passar e aprendeu que prevenir é melhor que remediar: não espere o belo dia do imprevisto chegar para se preparar. Busque esse conhecimento, compartilhe com sua família, ensine aos seus filhos.
Que possamos viver com mais sossego, sabendo que, se a linha da vida pedir socorro, teremos nas mãos as ferramentas certas para responder. Um abraço apertado, e hoje com gosto de gratidão ao Dr Robson, que fez de nós cidadãos melhores.
Até a próxima prosa.
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