09 - Crônica: Cinco Anos de Amanheceres: A Travessia de 1825 Dias
Por: Donatella Pontiel
Tem madrugada que a gente nunca esquece. Sabe aquele horário em que o céu ainda está escuro, mas já dá para sentir que o dia vai chegar? É um tempo suspenso, onde o mundo parece prender a respiração antes de recomeçar.
Eu, que já passei tantas noites em claro preocupada com meus três filhos, aprendi que a madrugada é o momento da verdade. É quando as máscaras caem e só resta o que é real. E foi pensando nessas noites que não dormi que mergulhei nas páginas de "1825 Dias Desintoxicando SP na Cracolândia".
Cinco anos. Mil oitocentos e vinte e cinco dias. Quando a gente coloca no papel, parece número de planilha. Mas quem já viveu um dia de dor sabe que cada amanhecer conquistado é uma batalha vencida. Li esse Obra com o coração apertado, sô. Porque conheço o peso de ver alguém que a gente ama se perdendo em caminhos escuros. Quando o marido foi embora, houve um tempo em que eu me senti perdida, como se tivesse perdido o chão. Mas eu tinha para onde voltar. Tinha meus filhos, tinha a universidade, tinha os livros. E quem está na Cracolândia? Para onde esses filhos de Deus podem voltar quando o mundo vira as costas?
A obra não é apenas um relato; é um documento humano de quem esteve na linha de frente. O autor — ou os autores — não escreveram isso de um escritório climatizado, com vista para o jardim. Eles estiveram lá. No chão. No meio do pó, do grito, do silêncio de quem já não tem mais voz. E isso faz toda a diferença. Como acadêmica na UEMG, já li muitos estudos sobre dependência química. Tem artigo bonito, tem gráfico, tem estatística. Mas tem uma distância entre o dado e a vida. Aqui, não. Aqui a gente sente o cheiro da rua, o peso do olhar de quem pede socorro. É literatura que não tem medo de se sujar com a realidade.
O que me tocou profundamente foi a ideia de "desintoxicar" não apenas o corpo, mas a alma. Porque o vício não é só químico, é existencial. A gente não se perde em substâncias por acaso. Tem um vazio antes, uma ferida que não foi cuidada, um grito que não foi ouvido. E esse trabalho de 1825 dias é sobre preencher esse vazio com presença humana. É sobre olhar nos olhos de quem a sociedade decidiu ignorar e dizer: "Você importa". Quantas vezes nós não passamos por situações assim e desviamos o olhar? Quantas vezes não julgamos sem saber a história por trás da pessoa?
Eu, que já li dezenas de obras neste acervo da ELHS, posso dizer que este tem um lugar de urgência na estante. Não é leitura para passar o tempo. É leitura para acordar a consciência. A Ana Caúzzo, na curadoria da ELHS, sempre diz que "quando eu conto a minha dor, eu produzo cura". Mas aqui, a cura não é só de quem escreve. É de quem lê. Porque quando a gente conhece essa realidade, não dá mais para fingir que não existe. É como abrir uma janela num quarto fechado: o ar entra, a luz entra, e a gente não consegue mais viver na escuridão de antes.
E tem um detalhe que preciso destacar com meu olhar de educadora. O título fala em "desintoxicar", mas o texto mostra que o processo é de reconstrução. Não é apenas tirar a substância; é devolver a dignidade. É ensinar que é possível recomeçar, mesmo depois de mil oitocentos e vinte e cinco dias de luta. Isso me lembrou muito meus alunos na universidade.
Tem gente que chega com defasagem de anos, com vida marcada por dificuldades, e mesmo assim encontra na educação uma ponte para o outro lado. A recuperação é uma forma de educação. É reaprender a viver, a confiar, a se olhar no espelho sem vergonha.
Para mim, este livro é um chamado. Não dá para ler e ficar parado. A gente lê e já pensa: "O que eu posso fazer? Quem eu posso acolher?". Não precisa estar na Cracolândia para exercer a solidariedade. Tem gente sofrendo ao nosso lado, no escritório, na igreja, na família. Tem filho, tem irmão, tem amigo que está se perdendo em silêncio. E às vezes, o que essa pessoa precisa não é de julgamento, é de uma mão estendida. É de alguém que diga: "Eu vejo você. Você não está sozinho".
Não leiam este livro como quem lê uma notícia de jornal, que a gente vira a página e esquece. Leiam como quem lê um pedido de socorro. Leiam para entender que a recuperação é possível, mas que ela precisa de rede, de apoio, de persistência. Cinco anos de trabalho mostram que o caminho é longo, mas não é impossível. E cada história de superação que está nessas páginas é uma prova de que a vida sempre pode recomeçar.
Fica aqui meu convite de professora e cidadã: conheçam essa travessia. Deixem que esse relato mexa com a sua consciência. Que a gente possa aprender que ninguém se salva sozinho. E quem sabe, ao ler essa história, você não encontre a coragem para estender a mão para alguém que precisa? Porque no fim das contas, somos todos viajantes na mesma estrada, e às vezes, o que separa um lado do outro é apenas uma escolha, um acolhimento, um amanhecer.
Até a próxima página, e que a sua madrugada sempre tenha um amanhecer esperando.
Donatella Pontiel
Professora Universitária Aposentada | Crítica Literária ELHS
Mineira de coração, paulista de origem.
Mãe de três homens feitos. Ativa nas letras.
"Assenta aqui comigo, vamos trocar dois dedos de prosa."
"Leia como quem busca água no deserto."