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14 - Crônica: Quando o Jaleco Encontra o Palco: A Cura que Vem das Notas

Por: Donatella Pontiel

Tem ofício que a gente escolhe e tem ofício que escolhe a gente. Sabe quando você nasce com um dom que não dá para esconder, por mais que tente? É como tentar segurar água com as mãos: escorre pelos dedos e molha tudo ao redor. Eu, que dediquei minha vida inteira ao ensino, aprendi que cuidar e educar são irmãos gêmeos. Ambos exigem entrega, ambos exigem presença, ambos exigem que a gente se coloque à disposição do outro. E foi pensando nessa dualidade que mergulhei na trajetória de Guerda Maria Kuhn, autora de "Além das Fronteiras".

Trinta e cinco anos de enfermagem. Quarenta e cinco anos de composição. Quando a gente coloca esses números no papel, parece conta de matemática. Mas quem já pisou num hospital sabe que cada plantão é uma vida inteira. E quem já subiu num palco sabe que cada canção é um pedaço da alma. A Guerda fez os dois. Simultaneamente. Durante a pandemia, enquanto vestia aquelas roupas de proteção que isolavam do mundo, ela chegava em casa exausta e compunha. Não por obrigação, não por fama. Por necessidade. Para não enlouquecer. Para manter a sanidade. Para transformar o peso do dia em melodia que cura.

Eu, que já vi tantas profissionais da saúde passarem pelos corredores da universidade, sei o que é o desgaste. Mas a Guerda me surpreendeu. Ela não é de São Paulo, não é de Minas. É do Rio Grande do Sul, terra de gente brava, de chão firme, de tradição forte. Nasceu no Rincão dos Azevedos, em São Lourenço do Sul, de origem pomerana. E aos seis anos ganhou um piano. Imaginem só: uma menina de seis anos, num interior do RS, diante de um piano. Aquilo não foi presente, foi destino. O instrumento não era dela; ela era do instrumento.

O que me prendeu nessa biografia foi a coragem de entrar em território masculino e sair vencedora. Os festivais nativistas gaúchos, sô, não são para qualquer um. São tradicionais, são rígidos, são historicamente dominados por homens. E a Guerda, com sua delicadeza feminina e sua firmeza de quem sabe o que quer, se infiltrou nessa seara. Foi frequentemente a única mulher compositora premiada em festivais como o Reponte da Canção. Isso não é sorte. Isso é persistência. Isso é talento que não se cala diante de porta fechada.

Como acadêmica aposentada, já li muitas biografias de mulheres pioneiras. Tem as que abrem caminho com grito, com revolta, com confronto. A Guerda abre caminho com música. Com suavidade. Com a força silenciosa de quem compõe mais de 600 canções e vê suas melodias gravadas por artistas nacionais. Ela não precisou gritar para ser ouvida. Suas composições gritaram por ela. E isso me lembra muito o que a Ana Caúzzo sempre diz na ELHS: "quando eu conto a minha dor, eu produzo cura". A Guerda não só conta; ela canta. E ao cantar, cura a si mesma e a quem escuta.

Tem um detalhe que preciso destacar com meu olhar de educadora. A Guerda foi a primeira enfermeira do município a atender pacientes com HIV/AIDS. Isso foi numa época em que o preconceito era ainda maior que hoje. Ela não recuou. Aplicou milhares de vacinas. Atendeu doentes durante a COVID-19. E em meio a todo esse cuidado com o corpo alheio, encontrava tempo para cuidar da própria alma através da música. Isso é equilíbrio. Isso é sabedoria. Isso é prova de que não precisamos escolher entre uma paixão e outra; podemos ser múltiplos, podemos ser inteiros.

Eu, que já li mais de setenta livros deste acervo da ELHS, percebo que as obras que mais marcam são aquelas que mostram a humanidade por trás do profissional. A Guerda não é só enfermeira, não é só compositora. É mulher, é mãe, é lutadora, é sobrevivente. Enfrentou luto familiar. Enfrentou a exaustão da pandemia. Enfrentou o machismo dos festivais. E em vez de endurecer, ela se tornou mais sensível. Em vez de calar, ela cantou mais alto. E agora, com este livro biográfico, ela permite que outros se inspirem em sua jornada.

A obra transcende as fronteiras do Sul. Participou de grandes **Bienais do Livro**. Chegou nas mãos de leitores de todo o Brasil. E isso é importante porque mostra que a dor não tem CEP, que a cura não tem sotaque, que a arte não tem divisa. O que a Guerda viveu no RS pode tocar alguém em Minas, em São Paulo, no Nordeste. Porque o sofrimento humano, a alegria são sentimentos universais, e a melodia que nasce desse sofrimento também é.

Para mim, este livro ocupa um lugar de reverência na estante. Não só pela história, mas pelo que ela representa: a prova de que é possível conciliar vocações aparentemente distintas. Enfermagem e música. Cuidado e arte. Jaleco e palco. A Guerda nos ensina que não precisamos nos fragmentar para caber nas expectativas dos outros. Podemos ser inteiros. Podemos ser múltiplos. Podemos cuidar do corpo e alimentar a alma.

Não leiam este livro como quem lê um currículo profissional. Leiam como quem escuta um testemunho de vida. Leiam para entender que a arte pode ser terapia, que a música pode ser remédio, que a criatividade pode ser salvação. E quando terminarem a leitura, não parem aí. Busquem as canções da Guerda nas plataformas digitais, comecem pela capa do livro acessando o QRCODE. Ouçam com atenção. Deixem que cada nota conte um pedaço da história que está nas páginas.

Fica aqui meu convite de professora e apreciadora de histórias verdadeiras: conheçam a trajetória da Guerda Maria Kuhn. Deixem que ela inspire vocês a não escolher entre suas paixões, mas a abraçá-las todas. Que a gente possa aprender que não há fronteiras que separem o cuidar do criar. E quem sabe, ao ouvir essa melodia, você não encontre coragem para compor a sua própria canção de superação?

Até a próxima escuta, e que suas fronteiras sejam sempre para serem atravessadas.

 

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