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Crítica Literária & Desenvolvimento
06 - Crônica: O Peso Dourado da Honra e a Leveza da Juventude
Por Donatella Pontiel em 24/02/2026
Por Donatela Pontiel
Tem uma beleza especial em ver a juventude florescer onde a gente menos espera. Sabe quando a gente planta uma semente e, de repente, veja só, nasce uma árvore antes mesmo da gente preparar a terra?
Eu, que já vi tantas turmas passarem pelos corredores da universidade, aprendi que o talento não tem idade, mas a maturidade para conduzi-lo é um dom raro. E foi com esse pensamento no peito que recebi em minhas mãos o volume "Honra em Jogo, Dever em Risco", da jovem Halana Sarah.
Confesso que, de primeira, fiquei curiosa. Vivemos num tempo onde as telas brilham mais que as páginas, onde a febre das séries de época, como essa tal de Bridgerton que as moças comentam, parece ditar o que é o amor romântico. Não que eu tenha nada contra as telas, sô. Mas quem me conhece sabe que sou apaixonada pelo cheiro do papel, pelo peso do livro na mão, por essa conversa silenciosa que só a leitura me proporciona, daqui de minha varanda. E olhe que surpresa: esse livro não é apenas um reflexo do que se vê na televisão. É mais profundo. É como se a Halana tivesse pegado toda aquela poeira dourada dos salões europeus e trazido para dentro da alma da gente, com um pé no Brasil e outro na universalidade do sentir.
A Halana é uma menina, se posso chamar assim, com menos de vinte e cinco anos. Na minha época, a gente achava que precisava de uma vida inteira vivida para escrever sobre honra e dever. Mas ela me provou o contrário. Li no editorial da Editora que essa obra tem fôlego para grandes premiações, como por exemplo o Prêmio José Saramago. E eu, com meu chapéu de acadêmica na cabeça, digo: tem tudo para isso. Não é apenas uma história de mocinhos e bandidos, de reinos e batalhas. É um mergulho nas "dores de Ariella" e nas "ações comedidas de Philip". É sobre aquele embate que a gente conhece bem: o que o coração pede versus o que a sociedade exige.
Eu, que criei três homens feitos, sei bem o que é esse peso da honra.
Lembro quando meus filhos começaram a namorar, e eu via neles a luta entre seguir o caminho seguro, o dever de filho, de estudante, e o desejo de seguir o amor, mesmo que esse amor parecesse um risco. Queremos proteger, quer que eles joguem seguro. No entando, a vida, essa teimosa, nem sempre segue o roteiro. A Halana capturou essa nuance com uma maestria que me deixou pasma. Ela não se limita a descrever vestidos de baile ou escudos de armas; ela descreve a cura para aqueles que "não se permitem amar". E isso, meus caros, é literatura de verdade em altíssimo nível.
Agora, preciso falar sobre o objeto livro, porque aqui na ELHS não brincamos em serviço. Em nossas reuniões de pauta, com visão de editorial e de crítica literária, falamos bastante que esse projeto foi uma curadoria de experiências. E se nota. A identidade visual foi trabalhada numa simbiose entre a autora e o design. A capa, com seus ornamentos dourados e o simbolismo, não está ali só para enfeitar. Ela comunica que, nesta história, a entrega é inevitável. É como entrar numa catedral: você sente que precisa baixar o tom de voz, respeitar o espaço.
E tem um detalhe técnico que eu, que sou exigente com diagramação, preciso exaltar. Optaram por fontes serifadas de alta elegância, como a Garamond e a Baskerville. Para quem não é da área, isso faz toda a diferença, e para os que são, remete a seriedade com que a obra foi tratada. São fontes que conversam com a atmosfera histórica, que dão conforto aos olhos e permitem que a gente se perca nas linhas sem cansaço. Cada detalhe, desde os espaçamentos milimétricos nos títulos de capítulos até a folha de rosto, foi planejado para que o objeto físico seja tão precioso quanto a narrativa que ele guarda. E para os que amam a versão eletrônica, o cuidado se mantém. É puro slow burn. E quando digo slow burn, quero dizer aquela queima lenta, que não incendeia de uma vez, mas que aquece o peito e não esfria mais.
Li tudo num fôlego só — amo romances, de época então! Vixe Maria! — mas com a calma de quem degusta um vinho antigo.
A escrita da Halana é um convite ao "bom português". Num tempo onde vemos tantos erros por aí, tanta pressa em abreviar palavras, ou se escrever com recursos de IA, ela nos presenteia com a norma culta sem ser engessada. É uma ponte entre o leitor e as emoções mais profundas. Isso me lembra muito o que a Ana Caúzzo disse no editorial: "buscamos a curadoria de experiências que unam a alma da escrita ao rigor da produção editorial". E é exatamente isso que temos aqui. Não é apenas um livro nacional; é um exemplar legítimo de que a literatura de época está em excelentes mãos.
Para mim, que já li muitos livros de romance de época, por gostar do gênero e por obter conhecimento histórico, este ocupa um lugar de destaque especial, pelo brilhantismo da autora. Não só pela história, mas pelo que ele representa: a renovação.
Ver uma autora jovem, com menos de trinta anos, dominar a estrutura narrativa com tamanha segurança me dá esperança. Me faz acreditar que o futuro da nossa literatura está seguro. A Halana representa essa nova geração de escritores — aqueles que já demonstram o vigor necessário para figurar em grandes palcos, mas que não esquecem a essência do contar histórias.
E sabe o que mais me tocou? A ideia de que o embate entre honra e dever se transforma em um processo de cura. Quantos de nós não travamos essa batalha? Quantas vezes não deixamos de amar por medo do julgamento, por medo de falhar com o dever? A Ariella e o Philip nos ensinam que é possível honrar o passado sem deixar de viver o presente. Que o risco, às vezes, é o único caminho para a felicidade verdadeira.
Não leiam este livro esperando apenas um passatempo. Leiam como quem busca entender o coração humano. Leiam para ver que o amor, mesmo em tempos de reinos e rainhas, é tão atual quanto o nosso cotidiano em Minas Gerais. A obra é a prova de que a literatura nacional de época está em excelentes mãos.
Fica aqui meu convite de amiga e professora: apoiem essa jovem voz. Presenteiem quem ama um bom romance, mas quem também valoriza a qualidade editorial. Que a gente possa se permitir sentir esta jornada de transformação e entrega. Porque, no fim das contas, honra e risco são duas faces da mesma moeda, e o amor é o que decide qual lado vai ficar para cima.
Até a próxima leitura, e que a honra guie seus passos, mas que o amor aqueça seu caminho para que nunca se esqueça do seu dever.
05 - Crônica: Quando o Grito Vira Canção
Por Donatella Pontiel em 23/02/2026
Por Donatela Pontiel
Tem coisa que a gente guarda na gaveta mais funda da alma, trancada não por falta de confiança, mas por excesso de proteção. Sabe aquele momento em que o chão treme debaixo dos pés e a gente percebe que a estrutura que sustentava a vida não era concreto, era apenas vidro? Eu conheço bem esse tremor.
Já comentei de passagem, em outras prosas, que o estudo foi o que sustentou minha casa quando o marido foi embora. Mas hoje, com a coragem que só os anos e a leitura de certas obras nos dão, quero abrir um pouco mais essa fresta.
Quando ele partiu, levou não só a companhia, mas a certeza de que eu era capaz de ficar em pé. O silêncio que ficou na sala era pesado, daqueles que empurram a gente para a cama e nos fazem querer cobrir a cabeça com o lençol. Eu tinha três filhos pequenos para criar, contas para pagar e uma vergonha injusta queimando o rosto, como se o abandono fosse uma falha de caráter meu. Foi ali, no meio dos escombros de um projeto que não deu certo, que eu entendi que a minha voz não podia morrer junto com o casamento. Eu precisava cantar, mesmo que fosse em sussurros, mesmo que fosse através dos livros e das aulas na universidade. A escrita virou meu abrigo, o lugar onde eu colocava ordem no caos do mundo, transformando a dor em texto, em aula, em vida.
Foi com essa cicatriz ainda sensível na alma que recebi o livro "A Voz que te Cala", escrito por MARIAA, com a tinta sensível da caneta de nossa Ana Caúzzo. E vou ser franca com vocês: abrir essas páginas foi como olhar para um espelho que eu evitei por muito tempo. Não porque eu tenha vivido a mesma tragédia, mas porque conheço a geografia do desamparo. Conheço o mapa de quando a gente se vê sozinha, tendo que ser pai e mãe, tendo que transformar o choro em combustível.
A história da MARIAA não é um conto de fadas, e graças a Deus que não é. Contos de fadas nos ensinam a esperar por príncipes; histórias reais nos ensinam a salvar a nós mesmas. Ela narra uma travessia dura, sô. Fala de abusos, de relacionamentos que começaram como porto seguro e viraram prisão, de um companheiro que, doente, levou consigo não só a paz, mas deixou um rastro de dívidas e processos. Tem hora que a gente lê e sente um aperto no peito, lembrando que existem mulheres trancadas em casas que deveriam ser santuários, mas que viraram campos de batalha.
O que me impressionou, como educadora e mulher, foi a honestidade brutal do relato. Não há vitimização vazia. Há relato de dor, sim, mas há também a prestação de contas da própria sobrevivência. Ela fala do medo da Lei Maria da Penha, não para diminuí-la, mas para alertar sobre a responsabilidade de usá-la. Isso me tocou profundamente. Na academia, aprendemos que a verdade é o primeiro degrau da justiça. E a MARIAA não poupou detalhes: falou do suicídio do agressor, do peso das dívidas que ficaram, do pânico que a deixou paralisada por anos. É uma radiografia de uma alma que foi quebrada e teve que se colar peça por peça.
E sabe qual foi a ferramenta que ela usou para se reencontrar? A música. Enquanto eu usei a escrita e a cátedra para colocar ordem no meu caos, ela usou o violão e a composição. Li sobre a mentoria com a mestra Fátima Leão e senti uma alegria genuína. Há algo de sagrado quando a arte deixa de ser apenas entretenimento e vira remédio. Ela conta que os dedos travaram no violão durante o trauma, e que voltaram a se mexer quando a cura começou. Isso é poesia pura, é a vida dizendo que o corpo guarda a memória, mas também guarda a capacidade de renascer.
A conexão comigo e com a Ana fica evidente na estrutura do livro. Conheço o rigor da biografa. Sei que ela não pega uma história dessas para enfeitar. Ela pega para lapidar, para dar dignidade. A narrativa tem o selo da verdade, aquela que dói mas liberta. Ver a MARIAA falar do filho, o Bruno, que cresceu no meio da tempestade e hoje é um homem íntegro, me fez lembrar dos meus três homens. A gente faz tudo por eles, aguenta o incomportável, engole sapos, só para ver eles florescendo lá na frente. O sucesso do Bruno é a vitória silenciosa dela, maior que qualquer prêmio musical.
Outro ponto que preciso destacar, com meu chapéu de pesquisadora na cabeça, é a transparência sobre o sistema jurídico e financeiro. Ela não esconde que ficou presa a dívidas por anos, que o banco não teve misericórdia, que a burocracia muitas vezes ignora a violência psicológica. Isso é importante para a sociedade entender. A lei é um escudo, mas às vezes a engrenagem é fria. O livro serve também como um manual de alerta, um guia do que não fazer, e do onde buscar ajuda quando o muro começa a cair.
Mas quero ir além da história individual. Preciso falar sobre o lugar que obras como esta ocupam na literatura brasileira. Vivemos num tempo onde a ficção muitas vezes nos afasta da realidade, nos vende mundos idealizados que não existem no chão da fábrica ou na sala de estar de uma casa em Pouso Alegre. Livros assim, biografias reais, documentais, são vitais porque eles ancoram a nossa cultura na verdade. Eles impedem que a memória se perca. Quando a Editora publica um testemunho como esse, não está apenas vendendo papel ou arquivos eletrônicos; está criando um arquivo histórico da resistência da mulher brasileira. É literatura que não tem medo de se sujar com a vida real.
E isso me leva a refletir sobre a importância das biografias. Muita gente torce o nariz, acha que só a ficção é "arte pura". Eu discordo. A biografia é o encontro do singular com o universal. Quando leio a dor da MARIAA, eu leio a dor de milhões e inclusive a minha. A biografia valida o sofrimento alheio. Ela diz: "Você não está louca, isso aconteceu, e você pode sobreviver". Num país onde a violência doméstica é uma chaga silenciosa, ter essas histórias registradas é um ato de saúde pública necessário. É transformar o grito isolado em coro organizado. É permitir que a menina que está sendo calada hoje encontre, numa estante daqui a dez anos, a prova de que é possível sair do outro lado.
Já li quase trinta dos 209 livros do acervo da ELHS, e cada um me mostra uma faceta diferente da resistência humana. Mas este, "A Voz que te Cala", tem um lugar reservado na minha cabeceira. Ele me lembrou que o abandono não é o fim. Quando o marido foi embora, eu achei que minha história tinha acabado. Hoje vejo que foi apenas o fim de um capítulo ruim, para que eu pudesse escrever os melhores depois. Com a MARIAA foi igual: o silêncio que tentou calá-la virou canção, e essa canção agora alcança pessoas que nem imaginamos.
Tem um detalhe que me prendeu nessas páginas, sô, e que toca diretamente na minha visão de educadora. É o momento em que a dor vira arte de verdade, sem enfeite. Li sobre o nascimento da música "Chega de Dramas" ouvi a música também. Isso me tocou porque mostra que o fim do sofrimento não é só o silêncio, é o canto. A MARIAA não apenas sobreviveu ao suicídio do agressor e às dívidas que ficaram; ela afinou o próprio instrumento interior. Como acadêmica, vejo aqui a arte-terapia em sua forma mais bruta: transformar o trauma em melodia que ajuda outras mães, como na causa do autismo. É a prova de que o nosso dom não morre com a tragédia; ele espera o tempo certo para ressurgir, tal qual uma fênix que aprendeu a compor o próprio voo.
E preciso falar com a seriedade que o tema pede, especialmente sobre a Lei Maria da Penha. No posfácio, a Ana Caúzzo traz um equilíbrio necessário que poucas obras têm a coragem de mostrar. A lei é escudo, sim, mas não pode ser espada para injustiças. Eu, Donatela vejo muito disso: a ferramenta jurídica precisa de responsabilidade. A obra não esconde que houve dívidas, coação e um contrato assinado sob ameaça. Isso nos ensina que a justiça tarda, mas a verdade sempre vem à tona. É um alerta para que a gente use a proteção sem esquecer a ética, honrando quem realmente precisa do amparo do Estado e não descredibilizando a luta de quem sofre de verdade.
"Por fim, quero que saibam que não estão sós." O livro oferece uma rede de apoio, um canal onde o silêncio imperava e agora floresce a conexão. Se você se identificou com esse relato, saiba que há mãos estendidas. A missão da autora é essa: fazer da dor um coro, não um lamento solitário. Que possamos, como a MARIAA, encontrar o tom da própria liberdade. Porque quando a gente conta a nossa dor, realmente, produzimos cura.
Não leiam este livro procurando por culpas. Leiam procurando por força. Leiam se você sente que está preso em um relacionamento que te diminui, ou se você conhece alguém que está calado demais. Às vezes, a palavra certa no momento certo é o que impede uma tragédia. A arte tem esse poder de nos dizer: "Você não está sozinho, eu também passei por isso, e olhe aqui, eu sobrevivi".
Fica aqui meu convite de amiga: ouçam essa voz. Deixem que ela ecoe na sua sala, no seu quarto, no seu coração. Que a gente possa aprender que, mesmo quando tudo parece perdido, ainda há uma melodia esperando para ser tocada. E que a gente nunca, jamais, deixe de cantar a nossa própria liberdade.
Um abraço acolhedor, e que a sua voz nunca se cale.